quinta-feira, 28 de maio de 2015

Importância do brincar para o desenvolvimento da criança

Em tempos de agenda lotada, a correria do dia a dia deixou de ser apenas coisa de gente grande. Tem criança por aí com uma rotina tão ou mais estafante que muito adulto. É escola pela manhã, reforço escolar à tarde, depois tem natação, aula de inglês ou mandarim (para não ficar no competitivo mundo globalizado), judô... e por aí vai a extensa lista de atribuições do adulto-mirim.

Mas será que alguma coisa importante ficou de fora? Infelizmente, sim! Nessa agenda recheada, muita vezes uma coisa simples, porém tão natural à infância, tem ficado de fora: a hora do brincar! Aquele simples tempo de extravasar a criatividade e deixar rolar um ato tão natural da criança em alguns momentos é esquecido.

Hoje, quando se comemora o Dia Mundial do Brincar, o Conversinha de Mãe traz uma entrevista com o psicólogo Jakson Cerqueira Gama. Na nossa conversa, falamos sobre a importância do brincar, os prejuízos da falta de um tempo pra isso e como os pais podem ajudar nessa tarefa.


Confira a seguir nossa conversinha com ele:

Conversinha de Mãe - Qual a importância do brincar para a criança?

Jakson Cerqueira Gama - Freud diz que “a criança brinca ativamente do que sofre passivamente!”. Isso significa que ao brincar a criança assume uma posição ativa acerca daquilo que sofre. Se ela está num hospital e passa por muitas condutas invasivas a seu corpo ela brincará de utilizar a agulha, fazer assepsia e curativos ou mesmo brincará de “passar a sonda”. Se a criança apanha dos pais ou recebe xingamentos destes, ao brincar, ela fará a representação dessa cena. A criança busca elaborar simbolicamente as situações pelas quais passa e, como não possui um vasto vocabulário como os adultos, ela assim o faz brincando.

Os filhotes de diversas espécies brincam. Os filhotes de leões brincam de lutar simulando ações das quais se servirá no momento da caça ou mesmo luta feroz por uma fêmea quando adultos. Seria uma forma de exercitar as ações que necessitará para sua idade adulta e sua sobrevivência. Eles exercitam sua postura, sua noção de profundidade, lateralidade, força, agressividade entre outras funções, sem a rigidez e o risco de morte que tais ações seriam realizadas na fase adulta. Assim como os filhotes de diversas espécies brincam, a criança, ao brincar, também exercita as questões cognitivas que necessitará para a idade adulta. Ela brinca de ser gente grande imitando ou mesmo representando profissões, lutas, discussões, etc.
Brincando a criança vivencia o mundo ao seu redor, apropria-se de seu corpo sob forma de imagem e esquema corporais, ela exercita o sensório-motor necessário para as fases pré-operatórias e operatórias necessárias para o exercício cognitivo indispensável para o ensino superior, para filosofar e criar hipóteses e teorias complexas. Brincando a criança elabora simbolicamente a forma com a qual vivencia as situações cotidianas, encena o que é ser homem ou mulher, o que é ser um soldado, um professor, um judoca, uma bailarina, um jogador de futebol, etc. A criança põem em funcionamento as funções psicomotoras, estimula seus aspectos cognitivos.
O brincar faz parte de aspectos instrumentais dos quais a criança se serve para dar conta de estar no mundo, experienciá-lo, apropriar-se dele ou mesmo modificá-lo. Os aspectos instrumentais dizem respeito aos hábitos de vida diária, o exercício da fala, a psicomotricidade, entre outros.

CdM - Tem como definir o que seja o brincar?

JCG – Podemos definir o brincar segundo suas características: brincar de enfileirar coisas, colecionamentos diversos, brincadeiras de “andar na linha” ou nas bordas, fazer percursos...
Brincar simbólico que seriam os famosos "faz-de-conta": agora eu sou o Batman, sou médico, sou ninja, sou policial, sou homem, sou painho, sou mainho, sou vilão.
Brincar como exercício das funções cognitivas: caça-palavras, quebra-cabeças, jogos de memória, dominós, baralho, etc.
As brincadeiras de regras como pega-pega, esconde-esconde, “cola-descola”, jogos de tabuleiro. Enfim ,é difícil classificar didaticamente assim, pois ao brincar a criança exercita o que é estar com outras crianças, as peripécias da língua e da fala, encena papeis, heróis, príncipes e princesas, vilões, a morte, as leis, as regras, põem o corpo em movimento e, jogando seu corpo no mundo, lidam com os limites do próprio corpo com o contato com o outro vivenciando regras, leis, normas sociais criadas ou impostas pela brincadeira ou jogo.

CdM – Temos visto cada dia mais crianças com agenda cheia, sem tempo até mesmo para brincar! Como nós, pais, devemos estar atentos a isso e colocar o brincar como uma prioridade para as crianças?

JCG – Para os pais basta lembrar a época em que foram crianças e não encher a criança de atribuições e atividades que estrangulam o tempo que podia ser disponível para o brincar e lidar com o mundo sem o peso do mundo dos adultos, criar, encenar, repetir, recordar, elaborar. Quando pensamos em infância pensamos no brincar, na ingenuidade, na sagacidade, na esperteza, no deslumbre com uma descoberta ou elaboração de uma teoria. Freud dizia que as crianças são pequenos cientistas pela sua curiosidade e seu ímpeto investigativo e criativo.
Claro que a criança precisa estar na escola, lá também é um espaço onde se faz amigos, brinca-se em grupo e lida-se com regras e aprendizados importantes para a vida; mas não precisa encher a agenda de seu filho com diversas atividades. É necessário sempre ter em vista que a qualidade de tempo dispensada para os cuidados de uma criança é mais importante que a quantidade de tempo que dedicamos a elas. A criança precisa se sentir ouvida, querida, cuidar, saber dos limites, respeitar as pessoas à sua volta, mas sem a necessidade de profissionalização precoce.
Sugiro assistir o filme "A invenção da infância" que trata da questão e problematiza a vida de crianças de classe média alta que estão com agendas cheias e crianças que dividem seu tempo entre a escola e o trabalho infantil no interior da Bahia.

CdM – Brincar é brincar independentemente do tipo de brinquedo (artesanal, tradicional, eletrônico...) ou a criança é mais beneficiada com determinados tipos de brinquedos?
JCG - Questão complexa! Brincar é sempre brincar, mas o tipo de brinquedo favorece a questão lúdica e o aprendizado dependendo do material e do brinquedo utilizado. Ao brincar de esconde-esconde a criança precisa dar conta da noção do próprio corpo e onde escondê-lo, tem que lidar com a noção de que não desaparecerá se o outro não a está vendo, tem que ser capaz de calcular se correrá mais que o “pega”, tem que ser capaz de entender as regras e tem que ser capaz de gritar bem alto: “1,2,3, salve eu” ou “1,2,3, salve todos”. Ao usar um boneco ou uma boneca a criança pode vivenciar a diferenciação entre os gêneros, os movimentos corporais, pode vivenciar como cuidar da casa, vestir roupa, lutar, usar armas, defender a lei, ou ser o vilão na mesma brincadeira.

Os brinquedos eletrônicos auxiliam nas questões cognitivas, na resolução de problemas complexos apresentados nos jogos, porém a qualidade dos gráficos reduz cada vez mais a noção entre o que é real e o que é jogo. Portanto é necessário supervisão e atenção para com o comportamento das crianças. Não sou contra os jogos eletrônicos mas é preciso observar a temática dos jogos e como as crianças estão lidando com isso no dia-a-dia.
A predileção por imagens já prontas pode favorecer uma dificuldade em construir a imagem que a criança constrói ao ler um livro, por exemplo, ao encenar um personagem. Quanto mais variedade de estímulos melhor! Eletrônicos, artesanais, tradicionais, etc são brinquedos e auxiliam no processo do brincar e no desenvolvimento neuropsicomotor da criança.

CdM – Qual a importância dos pais na brincadeira junto com os filhos?
JCG – Quando os pais brincam relembram sua infância, colocam regras e limites, divertem-se e criam um bom vínculo com a criança. Ela se sente amada, querida, estimulada, motivada, alegre e auxilia no desenvolvimento psicológico afetivo e cognitivo da criança. Claro que, por vezes, os pais têm que dar lugar ao contato com outras crianças, ficar na retaguarda e auxiliar com sua supervisão da brincadeira. O bom senso e a noção de que a criança cresce e necessita de contato com outras crianças possibilita que ela enfrente diversas situações e vivencie questões de sua própria faixa etária.

CdM- Que conselho você deixaria para os pais para estimular cada vez mais essa atividade que deveria ser tão inerente à criança?
JCG - Lembrem-se de que a infância é uma fase onde a criança está em franco desenvolvimento cognitivo e da personalidade. Busquem dar limites, atenção, carinho, afeto, e brinquem com seus filhos! Curtam essa fase! Pois a criança uma hora cresce e as mais importantes marcas para a vida de uma pessoa corresponde às marcas advindas dessa fase em particular! O que interessa não é a quantidade de brinquedos, mais a qualidade, o estímulo, respeitar o desejo de brincar ou não com aquele brinquedo, assim como respeitar os limites que os pais impõem com relação aos valores gastos com brinquedos. Bom senso, cuidado e respeito são fundamentais. Se for possível que os pais busquem um estilo de educação compartilhado pelos dois é bem melhor que vivenciar pais que brigam entre si e desfazem da educação que um ou outro dá à criança. Discórdias entre a educação sempre existirão, mas busquem uma regra clara pensando no futuro da criança e nos conhecimentos, nas posturas e nos valores que serão necessários para ela na vida adulta sem esquecer que ela está crescendo.

Curtam a infância dos seus filhos! Brinquem e permitam que brinquem com alegria, cuidado e supervisão de um adulto.

Então, vamos brincar?

Beijos

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