terça-feira, 5 de agosto de 2014

Amamentação: relato de uma experiência marcante, do início ao desmame

Nossa série traz hoje o relato de uma mãe sobre a sua experiência, dificuldades, apoios e vitórias. Enfim, uma emocionante narrativa sobre esse momento encantador da amamentação. Com vocês, o relato da jornalista Martha Mendonça, a mamãe de Malu:

“Enfim, depois de dois anos, vou escrever a experiência mais marcante da minha vida: meu processo de amamentação de Malu. Não sei o motivo de ter demorado tanto para colocar pra fora todas essas sensações. Dizem que quando a coisa é muito forte, muito profunda, há uma espécie de bloqueio em expor. Mas, vamos lá, hora de transformar amor em letrinhas.

Malu nasceu no dia 2 de julho de 2012, com quase 42 semanas, de um parto cesárea, não por opção, mas por falta de condições médicas. Nasceu pesando 4,410kg e medindo 50cm. Gorda e enorme. Linda e rosa. Tinha uma fome de arrasar. Uma menina enorme assim tem muita fome e, obviamente, muita força.

E tanta fome e força fizeram com que na primeira mamada meu bico do peito rachasse. Na maternidade a enfermeira me disse muito pouco sobre amamentar. E eu, marinheira de primeira viagem, achava que era só enfiar a boquinha dela e esperar. Me enganei. Estava doendo, questionei a dor, mas me disseram que era normal.
Martha e Malu: perseverança e dedicação para amamentar
Meu leite era pouquinho e a fome dela, gigantesca. Quanto mais mamava, mais machucava. O bico começou a ferir de verdade. Me tiraram Malu e disseram que eu descansasse que ela tomaria leite artificial no berçário. Não dormi um só minuto. Como poderia permitir que minha filha chorasse de fome enquanto eu dormia? Minha cabeça não me deixou relaxar e eu quis Malu de volta no quarto.

Sabia do risco, mas fui em frente. Saímos da maternidade intercalando o leite artificial entre as mamadas. Aquilo me doía a alma. Sentia um fracasso pessoal bem profundo. E isso foi me comendo, me corroendo por dentro. A primeira noite longe da maternidade foi infernal, ela chorava de fome incontrolavelmente, enquanto eu chorava de dor. Uma dor física tão forte que se misturava à dor da alma de não conseguir alimentar minha filha.

O dia amanheceu e eu continuava disputando com Malu quem chorava mais. Eu tinha lágrimas silenciosas. Era tanta dor! Meu marido, André, chegava a segurar meus braços e minha madrasta (e anjo) colocava Malu em meus seios. A dor era tanta que tinha medo de não aguentar e, sem querer, machucá-la. Passei todas as pomadas do mundo, brasileiras, estrangeiras, tudo.

Meu marido e eu tomamos a decisão de voltar para a maternidade e pedir ajuda. Ouvi que era melhor desistir. A frase era: “Mãe, aí não tem mais o que fazer, nem insista, há mães que não conseguem mesmo”. Compre Nan. Sai da sala da enfermeira indignada. E disse ao meu marido que tínhamos que correr para o Banco de Leite. Era a minha última chance.

Fui lá já no fim do expediente. Fui salva. Salva por mulheres de aparência simples, de palavras contidas, sem muita frescura. As fadas do leite materno. Ensinaram-me a sanar a dor. No dia seguinte, uma delas foi até a minha casa. Ensinou-me novamente a massagem, a pegada e posição correta. Ela, Maria José (até hoje tenho o cartão dela na minha carteira) saiu da minha casa e eu sorri cheia de vida. O nome desse sorriso era esperança. Levantei do sofá e me enchi de coragem. A dor ia ser vencida, era questão de tempo.

Quinze dias se passaram, de pouco em pouco, as dores diminuíam, Malu engordava e meu leite JORRAVA. MEU LEITE JORRAVA. Eu vivia um zumbi, minha pequenina era gulosa demais, amava ficar colada no peito da mamãe. E eu, a essa altura, estava me sentindo a melhor mãe do mundo. Decidi em uma das mamadas que era Malu quem ia me dizer o dia que a gente ia parar. E assim foi.

Tivemos ainda alguns perrengues na estrada. Oito meses depois, eu tive mastite, ficamos usando só uma mama. Mas, novamente, vencemos. Ela fez um ano, as pessoas me olhavam torto, perguntavam quando eu iria parar e eu dizia: quando ela quiser. Acho que não é a mãe que tem que decidir, é a cria que diz. Sei que é cansativo, que é desgastante, que eles acordam a noite inteira e a gente quer morrer de cansaço.

Sei de todo o ônus e todo o bônus de bancar uma amamentação prolongada. Não critico quem para no caminho, mas me orgulho imensamente dessa vitória. Paramos faltando dez dias para Malu completar dois anos. Tive que viajar a trabalho e ela parou de pedir. Ela alisava e dizia que o peitinho estava dodói. Sem dor, sem choro, sem trauma. Eu e ela, lado a lado, na nossa primeira grande história de mãe e filha.”

Não tem como se emocionar com um relato desses. É mais uma prova de como o apoio, tanto da família como de profissionais de saúde e outras mulheres é fundamental para que a mamãe consiga amamentar seu bebê.


Na primeira hora: direito do bebê e da mãe

Hoje, pegar o bebê nos braços, ficar pele com pele, sentindo o pulsar do seu coraçãozinho logo nos primeiros segundos de vida fora da barriga, colocá-lo ao seio para esse primeiro contato mãe e filho é um direito. No mês de maio, o Ministério da Saúde publicou uma portaria onde estão explícitas as recomendações e regras para o parto humanizado nas maternidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Essas são algumas delas, nos casos em que o bebê nasce em perfeitas condições de saúde.

Ou seja, é um direito seu e meu como mãe não apenas pegar o bebê tão logo ele nasça, mas também amamentá-lo na primeira hora de vida. Essas diretrizes (que incluem várias outras coisas) vêm apenas referendar as recomendações que já existem da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Os benefícios dessa primeira mamada vão além do ato de apenas alimentar o bebê. São vários e imprescindíveis à saúde do recém-nascido. Entre eles, podemos citar o fato de acelerar a descida do leite materno, aumentar a chance de sucesso no aleitamento, a diminuição da possibilidade de hemorragia uterina e as vantagens do vínculo psicológico.

De acordo com a Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (WABA), nessa primeira hora de vida, o reflexo de sucção do bebê é mais forte e eficaz e contribui para estabelecer uma “pega” apropriada. Fora isso, há a proteção imunológica que o bebê necessita assim que nasce.

Afinal de contas, o colostro da mãe (o primeiro leite que ela fornece) é uma injeção de imunidade no bebê, previne o aparecimento de doenças como alergias, infecções e diarreia - uma das principais causas de mortes de crianças nos primeiros meses de vida - pelo adequado controle e equilíbrio das bactérias que se desenvolvem em seu intestino.

Outro dado interessante sobre a amamentação logo após o nascimento foi revelada pela pesquisa “Nascer no Brasil”, feita recentemente pela Fiocruz e em parceria com diversas instituições científicas do país. Ela mostrou a influência do tipo de parto no aleitamento materno na primeira hora de vida do bebê. De acordo com a pesquisa, 22,4% das mães que fizeram parto normal iniciaram o aleitamento materno logo em seguida, sendo que somente 5,8% das que passaram por cessaria conseguiram amamentar na primeira hora após o nascimento.

Beijos

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