sexta-feira, 25 de julho de 2014

52% dos pais admitem ceder às chantagens dos filhos quando assunto é consumo



“Todo mundo tem e só eu que não vou ter”… “Se você me der, eu prometo que faço isso”… “Meus amigos vão rir de mim se eu for o único que não tiver”… É difícil encontrar pais ou mães que não tenham cedido a pressões dos filhos como as listadas acima. E foi justamente o que constatou uma pesquisa do Portal Meu Bolso Feliz em parceria com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil): 52% das pessoas ouvidas afirmaram já ter comprado produtos para os filhos, mesmo sabendo que essa atitude iria comprometer o orçamento da própria família.

Os pais também foram questionados a respeito dos argumentos mais desafiadores ao lidar com a pressão dos filhos. Para 22% dos entrevistados, o mais difícil são as negociações do estilo “se você me der isso, eu prometo fazer aquilo”. Em segundo lugar vem a chantagem emocional, argumento mencionado por 16% da amostra. Nesse caso, os pais acabam cedendo para não se sentirem culpados, ou para não “ficar com dó” das crianças.

Para a psicóloga Maria Tereza Maldonado a criança, como qualquer ser humano, é dotada de desejos e ânsias e, desde muito cedo, aprende formas e mecanismos para satisfazer suas vontades. “Um bebê, por mais novinho que seja, já consegue entender que tem o poder de chamar a atenção dos pais e de todos em sua volta, quando começa a chorar, por exemplo. Sendo assim, a criança aprende no convívio com os pais quais são os argumentos e até as chantagens mais eficientes que vão fazer com o que o seu desejo seja realizado”, explica a psicóloga. Além disso, na avaliação da especialista, o atual bombardeio publicitário ao qual as crianças estão expostas colaboram para despertar novos desejos e ânsias pelo consumo.

O sentimento de culpa
Na avaliação dos especialistas ouvidos, o consumo como moeda de troca está solidificado, na maioria dos casos, em um sentimento de culpa dos pais. “A satisfação do desejo sentido pelos filhos pode representar, na verdade, uma compra de paz de espírito para os próprios pais. Comprando tudo aquilo que o filho pede, os pais tentam se livrar do peso causado pelas longas ausências em função do trabalho e da rotina corrida do dia a dia”, explica a psicóloga Tânia Zagury.

É tanto que, quando os pais foram perguntados sobre os produtos mais comprados para os filhos nos últimos três meses, os itens de eletrônicos (jogos, celulares e notebooks) aparecem em primeiríssimo lugar, seguidos das roupas, dos programas de passeio, dos calçados e dos brinquedos.

“Não me espanta o fato de que jogos, celulares e notebooks sejam os itens mais comprados pelos pais, porque são exatamente estes itens que deixam as crianças entretidas por mais tempo, inocentando os pais pela ausência de afeto e dedicação às crianças”, explica Maria Teresa.

O não positivo
O poeta Fernando Pessoa escreveu certa vez em seus versos: “Vida vivida é vida sofrida”. E realmente é fato: não existe como vivenciar uma experiência na Terra, sem passar por dificuldades e frustrações. Os especialistas do Meu Bolso Feliz são unânimes em afirmar que experiências de frustração na infância são imprescindíveis para que a criança desde cedo aprenda a lidar com situações difíceis e de desconforto.

“Aí entra o não positivo, que é simplesmente a maneira que os pais negam o pedido da criança — nas situações em que realizá-lo não é possível –, explicando o motivo por que aquele desejo está sendo negado”, orienta Maria Teresa.

Para a psicóloga, o segundo passo é identificar a raiz do desejo da criança, ou seja, por que ela quer tanto determinado produto naquele momento e a todo custo. “Os pais vão perceber que, muitas vezes, o problema que a criança está enfrentando não tem nada a ver com o mundo material e aí podem até identificar um problema de autoestima e de insegurança do filho. Por isso a importância de praticar o não positivo”, revela a especialista.

Ela acrescenta ainda que dinheiro e gastos excessivos não curam esse tipo de insegurança do filho. “Muito pelo contrário. Ao darem este exemplo, os pais estão incentivando um tipo de ciclo vicioso, que na maioria das vezes resulta em descontrole financeiro e não resolve o problema da criança”, explica.

Mau exemplo para os filhos
A pesquisa do SPC mostra que os pais não estão, no geral, dando bom exemplo aos filhos. Entre os entrevistados que têm filhos, 76% já ficaram inadimplentes, e 53% compraram alguma coisa sem precisar nos últimos três meses. Além disso, 74% não reservam uma parte dos ganhos mensais para poupança e 37% está pagando atualmente cinco ou mais parcelas ao mesmo tempo, entre compras parceladas no cartão de crédito, crediário, cheque pré-datado e empréstimos.

Na avaliação de Tânia Zagury, pais que têm dificuldades de lidar com dinheiro dificilmente terão um pensamento crítico em relação a gastos excessivos dos filhos e conseguirão dar um bom exemplo. “Não me surpreendo com o fato apontado pela pesquisa de que a maioria dos pais avalie que seus filhos têm bom comportamento financeiro”, disse Tânia.

Com mais da metade dos pais admitindo ceder à pressão dos filhos, a psicóloga concluir que a tarefa de formar consumidores mais conscientes não é nada simples. Os pais não têm educação financeira, compram por impulso e sequer percebem que os filhos seguem o mesmo caminho”, indaga.

De maneira geral, os especialistas do Meu Bolso Feliz recomendam que os pais conversem direta e abertamente com as crianças sobre a atual situação financeira da família, seja ela positiva ou não. “O pai que esconde a realidade financeira e satisfaz todas as vontades dos filhos, cria filhos sem limites e que vão ter profundas decepções ao longo da vida para lidar com perdas e frustrações. Já aqueles que falam abertamente e dão bons exemplos, conseguem criar adultos que, além de preparados financeiramente, conseguem superar e até driblar as dificuldades impostas pela vida”, concluir Maria Teresa.

Preparado para o consumo consciente
Aprenda com nossos especialistas como ensinar os pais a driblarem a chantagem emocional, educar o filho e tentar prepará-lo para o consumo na vida adulta:

 1) Aprenda a dizer não, mas contextualize e explique o motivo da decisão, de modo que a criança se envolva com as finanças de casa e se convença da impossibilidade de realização daquele pedido.

2) Ao saber da importância educacional de dizer “não” e da forma como se está preparando o filho para as frustrações futuras, os pais automaticamente declaram a disposição de mudar uma conduta evitar cair na armadilha da culpa ou da pena, sentimentos comuns nas relações. Resista à tentação de presentear os filhos por culpa.

3) Toda conversa deve ser conduzida com respeito e carinho, mas não subestime a capacidade da criança. Com uma boa linguagem, elas são capazes de entender os mais diferentes tipos de problemas. Lembre-se que nesse processo você estará ensinando a lidar com uma coisa natural da vida: frustrações.

4) As crianças são dotadas desejos assim como os adultos, mas é importante que tenham claramente na cabeça a diferença entre querer e precisar.

5) Entenda o porquê de tanto desejo sobre determinado presente/objeto e converse com a criança. Muitas vezes o problema que a criança está enfrentando não tem nada a ver com o mundo material e sim emocional. Dessa forma, os pais podem se surpreender e identificar um problema de autoestima e de insegurança do filho.

6) Converse com as crianças sobre as datas significativas para presentes especiais como Natal e aniversário. Evite os presentes fora de hora. É importante que os pais ensinem os filhos a suportar esperas.

7) Ao ir às compras, faça uma lista e mostre para criança como que os gastos da família são planejados. Se possível, também inclua a criança nessa lista, mostrando que ela tem espaço, mas que tudo deve ser feito com controle e planejamento.

8) Não use a mesada como um mecanismo de moeda de troca, como chantagem ou como um instrumento para acirrar ainda mais o controle dos pais pelos filhos. A mesada é um instrumento que serve para ajudar o filho a planejar e controlar os próprios gastos e não uma moeda de troca para se obter boas notas ou bom comportamento.

Beijos

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Fonte: Portal Meu Bolso Feliz

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